Poesia transborda: “A Forma da Água” é conto de fadas para adultos.



Não necessariamente contos de fada são para crianças. Basta relembrar as histórias dos irmãos Grimm, por exemplo, e constatar que as adaptações da Disney passaram evidentemente por uma filtragem para o público infantil, uma vez que o caráter sombrio e horripilante de Branca de Neve, Cinderela e A Bela Adormecida, se mantidos na íntegra, não soariam de bom tom ao público alvo. A Forma da Água, que estreou na última quinta-feira, é para adultos e ponto. E, não por isso, deixaria de reunir todos os todos os elementos de contos de fadas, afinal de contas, tem um príncipe, um vilão, amor impossível, uma donzela plebeia – e um narrador em off. Só que é ambientado nos anos 60.

Ora, na primeira cena o diretor Guillermo Del Toro já impõe esse contexto: o que parecia, à primeira vista, a rotina de uma princesa sem maldade, surge só como o preparo para um momento de quem tem solidão. De se frustrar – e não por anormal, mas porque inesperado – aquilo que se orquestra na sequência, cujo ritmo parece ter saído de uma cena de desenho animado: era só o preparo para um prazer, apenas isso. Del Toro deixa ausente, de plano, o tal do maniqueísmo; todos os personagens possuem, dentre seus defeitos e qualidades, a característica que torna cada um deles muito mais perto de ser real, pois ninguém é muito mau, nem muito bom, nem muito inocente.

A protagonista é Elisa (Sally Hawkins), uma mulher madura, que a atriz faz questão de reforçar o rosto cândido, e que trabalha na limpeza de um laboratório americano, surgindo em meio às dificuldades que enfrenta no seu cotidiano por ser muda, uma paixão mútua, quase impossível, com uma criatura que fora levada para lá para testes. Ela conhece Dalila (Octavia Spencer) há dez anos, que lhe faz companhia e lhe ajuda no trabalho; em casa, Elisa auxilia seu vizinho, um solitário artista plástico em crise existencial. Porém, o mote da narrativa não é a solidão, mas o restinho de ação que lhe persegue, já que percebendo o sacrifício do animal indefinido no laboratório em razão da maldade dos homens, decide ajudá-lo a escapar.

Nesse contexto, fica difícil não relembrar da jornada de Selma Jezkova, interpretada pela cantora Bjork, no seu único papel no cinema, no magnífico Dançando no Escuro (2000), de Lars Von Trier: há um grau de parentesco, é verdade, ante as dificuldades diárias das protagonistas, mas jamais a obra em questão, em certo grau mui esperançoso, se aproxima da última no quesito pessimismo. Aqui a personagem de Hawkins brilha, aliás, pela verossimilhança que empresta às situações vivenciadas com a realidade – e, embora de fadas, o conto, não necessariamente por ser donzela ela não seja menos humana. Explico. Mergulhada numa riqueza de detalhes, ela perpassa pelas necessidades físicas mais comuns dos seres humanos, sem trejeitos obrigatórios de tentar parecer pura, em outras palavras, pois preserva a perda da inocência em gestos simples, também nos mais inesperados, como se masturbar. Ademais, o seu talento com a linguagem de libras é uma coisa à parte. Tarefa perspicaz, assim, manter o semblante aliviado quando, por exemplo, relata uma cena de sexo – ou, mais ainda, quando cerra levemente os olhos para, quando necessário e ao seu interesse, flertar com o vilão para enganá-lo. É, pois, tão princesa como qualquer outra, mas à sua maneira realista.

Noutra ponta, os demais personagens não se deixam ficar para trás. E, veja: embora no mesmo papel de brava e briguenta, Octavia Spencer não cai de pára-quedas no elenco. Mas, exata: não é a mesma de sempre, vez que traz retoques de simpatia à sua Dalila, tornando-a fragilizada e, portanto, se encaixando perfeitamente na narrativa, já que, ademais, sua coadjuvante é aquela que necessariamente supre a ausência de fala da protagonista – e não enjoativa, mas graciosa – carregando nas costas a responsabilidade de criar uma atmosfera de diálogos, tendo-lhe por atribuível a tradução da fala (em libras) da colega de cena e expressão da sua, como resposta. E, de brinde, temos seu natural timing cômico, o que não é pouco.

Pois bem, Del Toro elabora uma narrativa repleta de referências. A uma, temos, tão logo, o homem-anfíbio, a relembrar minimamente “Frankenstein de Mary Shelley”, quer pela situação de fato, quer pela aparência humana da “aberração”, ou “coisa”, ou “monstro”, ou “criatura”, enfim, são vários os apelidos dados a este estranho que não se sabe o que é, nem de onde vem, só que é da América do Sul, conforme diz um personagem num ponto da trama. Portanto, a razão aflorada dele, que precisa ser despertada, acompanhada da capacidade de aprendizado que possui, o torna um ser enigmático, ou seja, de se questionar o que está diante da sua capacidade de existência. Vale dizer: ou ele é o perigo do avanço da humanidade, ou é a solução. De maneira que evoca, neste aspecto, a temática de Blade Runner (1982) e Prometheus (2012): “De onde somos?” e “De onde viemos?”.

Porém, Del Toro não é apenas rico em citações, mas as metáforas, estas sim, são as coisas mais lindas do filme. Assim, cada enquadramento, cada movimento de câmera, tem seu significado. Ora, a despeito de que a própria situação aqui abordada nada menos traduz do que uma paixão impossível à luz de King Kong e A Bela e a Fera, tem-se sequências inesquecíveis, como a do plano aberto captura um sapato flutuando na mise-en-scene, em uma explícita referência a Cinderela, e outra, mais simbólica, de gotas de água se movimentando pelo vidro de uma janela, a significar um embrião correndo para um óvulo, logo após uma cena de sexo.

Enfim, A Forma da Água é um filme fabuloso, tal e qual, A Espinha do Diabo (2001) e O Labirinto do Fauno (2005) – e que até podemos encarar como uma trilogia em razão da conexão temática. Mas esse aqui é real, sem que isso, é claro, o torne melhor que os outros. Mas, por envolver pessoas, poderia ser algo vivido no nosso dia a dia. O diretor Guillermo Del Toro fala de amor, preconceito, e dos nossos desejos mais profundos, os quais ninguém escapa. Nem uma princesa.

A Forma da Água (The Shape Of Water). Direção: Guillermo Del Toro. Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor. Produção: Guillermo del Toro e J. Miles Dale. Montagem: Sidney Wolinsky. Fotografia: Dan Laustsen. Música: Alexandre Desplat. Elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Doug Jones, Richard Jenkins, Michael Shannon, Michael Stuhlbarg. 2017. Inglaterra. 2h e 03 min. Nota: *****

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